O Dragão Fashion Brasil Festival (DFB) completou quase 30 anos e, em sua edição mais recente, buscou renovar a tradição da moda cearense. O evento fez parte do calendário oficial de comemorações do tricentenário de Fortaleza e retornou às suas origens, reocupando a região da Praia de Iracema.
No último dia do festival, o estilista Lino Villaventura montou uma passarela na Ponte dos Ingleses, um cartão postal do século 19 sobre o mar de Fortaleza. Sua coleção apresentou nervuras que lembravam cristais de gelo e patchworks com ramificações fractais. Pela primeira vez desfilando à luz do sol, o estilista, paraense de origem e cearense de carreira, mostrou uma faceta diferente do que apresenta no SPFW, resumindo a temporada nordestina de moda, que propôs uma reflexão entre cidade, natureza e o material humano típicos do Ceará.
Foi na Praia de Iracema que, em 1999, o produtor Cláudio Silveira decidiu que o Ceará tinha algo a dizer além do que era exibido no eixo Rio-São Paulo. Ele comanda uma semana de moda quase tão antiga quanto os eventos do Sudeste e mantém a verve combativa do evento, onde estilistas não-nordestinos são exceção. “Hoje, a nossa luta é outra. Toda vez que a moda brasileira finge que só existem dois ou três sotaques, todos sofremos uma espécie de apagamento”, afirmou Cláudio.
Os 40 desfiles da semana de moda local, todos gratuitos, passaram a dialogar com a história e a arquitetura do bairro, e não apenas com a estrutura técnica das arenas montadas ao lado do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A decisão de colocar a moda em contato físico com o território teve consequências estéticas, como nos desfiles que ocuparam a Rua dos Tabajaras, de Silvânia de Deus, e na comemoração da carreira de Jô de Paula, cofundadora da Catarina Mina, que ajudou a desenhar uma coleção com artesãos ligados à Ceart.
O DFB tem como propósito ser celeiro de novos talentos, o que gera uma tensão: quanto mais marcas estreantes são incorporadas, maior o risco de diluição. Muitos desfiles giraram em torno dos mesmos eixos, como artesanato regional, materiais naturais e paletas de terra e bege. O problema, segundo a análise, é quando essa gramática visual se torna o ponto de chegada, e não o de partida.
Nomes como David Lee se destacaram ao traduzir o imaginário dos festejos sertanejos em peças com bordados e crochês florais, incluindo o trabalho do artesão André Cardoso. A jovem Patú, que surgiu em 2021, homenageou o compositor Ednardo em seu desfile de estreia, com tecidos naturais e alfaiatarias amplas. A Studio Orla, focada no público masculino e adotada por mulheres, apresentou soluções contemporâneas em texturas e bordados manuais, assim como Gabriela Fiuza, especializada em crochês de seda.
A iniciativa Mãos da Moda, parceria da plataforma Nordestesse com o Riachuelo Lab, foi um dos projetos mais interessantes. Oito criadores de Bahia e Paraíba trabalharam com mais de 60 artesãos para criar coleções integradas. Em alguns casos, como na parceria de Adriana Meira com a Associação de Mulheres Quilombolas Artesãs de Barra, Bananal e Riacho das Pedras, o diálogo entre design e artesanato produziu algo novo. Em outros, o artesanal serviu como ornamento sobre propostas já definidas.
O desafio do DFB, que beira os 30 anos, não é apenas dar visibilidade à moda nordestina, mas transformar o repertório cultural em plataforma para experimentação. Os desfiles mais interessantes foram aqueles em que artesãos e criadores produziram algo que nenhum dos dois faria sozinho, renovando a tradição.
