O dólar subiu e Wall Street renovou recordes, mas gestores alertam que o maior risco para o investidor brasileiro é manter todo o patrimônio aplicado no Brasil. A economia norte-americana é maior e mais forte, com perspectivas futuras mais atraentes.
Para Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor de renda variável da Paramis Avantgarde Asset, a menor preocupação do investidor deve ser tentar acertar o câmbio como baliza de entrada no mercado internacional. “Essa é uma alocação estratégica, não é trade de câmbio”, resume.
Com o dólar próximo de R$ 5,20, França sugere uma “entrada parcelada” para quem tem pouca ou nenhuma exposição global. “Faz sentido começar mesmo com dólar alto, porque o risco maior é ficar 100% dependente de Brasil, real e juros locais. Mas eu evitaria fazer tudo de uma vez. Dividiria em tranches mensais”, afirma.
Os instrumentos para investir no exterior são variados. Por meio de ETFs negociados na B3, como o IVVB11 e o NASD11, o investidor acompanha índices como o S&P 500 e o Nasdaq-100. França ressalta que o Nasdaq não substitui uma carteira global, sendo uma aposta mais concentrada em crescimento e tecnologia.
Ian Caó, diretor de Investimentos da Gama Investimentos, destaca que as empresas de tecnologia e semicondutores puxam o crescimento norte-americano. O Philadelphia Semiconductor Index sobe mais de 70% no ano. No entanto, o momento é desafiador para novos investidores, com inflação pressionada e juros altos nos EUA, entre 3,50% e 3,75%. “É sempre difícil, se não impossível, apontar picos de mercado”, completa Caó.
Guilherme Zanin, analista CFA e professor na Eu Me Banco, diz que o maior risco do brasileiro não está no dólar ou no Federal Reserve. “Maior risco é achar normal ter mais de 90% do patrimônio em Brasil”, afirma, citando estudo da XP Investimentos que mostra menor retorno e maior volatilidade para quem manteve tudo no Brasil em dez anos.
Rodolfo Marinho, sócio e diretor de Operações da IP Capital, acredita que o rali não é uniforme. “O mercado financeiro norte-americano hoje está funcionando de forma muito monotemática”, observa. Ele aponta que o dinheiro novo está indo para semicondutores, energia e data centers, criando distorções. Empresas como Mastercard caem 15% no ano com lucro subindo 15%, enquanto Microsoft negocia a múltiplos abaixo da pandemia.
Para quem faz stock picking, 2026 oferece uma janela atípica, pois o resultado operacional tende a puxar os preços de volta. A mesma lógica vale para outras geografias. Luciano França sugere que a Europa pode ser alternativa mais barata, com diversificação em bancos, indústria, defesa e energia. A China possui companhias descontadas, mas com riscos de governança.
Maurício Garret, chefe da mesa de operações internacionais do Inter, vê oportunidades na China na área de infraestrutura e energia, ligadas à corrida da inteligência artificial. “O investidor pode rapidamente aumentar diversificação, para ativos em dólares, e acessar mercados financeiros do mundo todo via ETFs”, afirma.
O investidor deve ficar atento à inflação norte-americana, que bateu 4,2% em maio, e à resposta do Fed. O juro de dez anos e o prêmio fiscal do país continuam sendo variáveis importantes para ações de crescimento, especialmente as de tecnologia, que são sensíveis à curva de juros. O rali só se sustenta se as revisões de lucros continuarem positivas.