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Escrever sobre a própria vida por 2 semanas alivia depressão

Estudo da Universidade Cornell mostra que reflexão escrita sobre identidade e trajetória pessoal ajudou jovens com sintomas depressivos

Por · · 4 min de leitura
Escrever sobre a própria vida por 2 semanas alivia depressão

Um período curto de escrita reflexiva, de apenas duas semanas, pode reduzir sintomas de depressão em jovens adultos, segundo estudo publicado no periódico científico Journal of Consulting and Clinical Psychology. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e acompanhou 112 voluntários de 18 a 29 anos com quadros moderados a graves do transtorno.

Os participantes foram divididos em dois grupos. Um deles escrevia diariamente sobre fatos corriqueiros do dia a dia, enquanto o outro respondia a perguntas voltadas a provocar reflexão sobre identidade, valores e trajetória de vida, como lembranças marcantes da infância ou o que motiva suas escolhas no presente. As informações constam de reportagem do Tribuna de Minas.

Segundo o levantamento, os dois grupos apresentaram melhora nos sintomas logo após as duas semanas de prática. Mas o efeito só se manteve, por até dois meses depois, entre quem fez o exercício de reflexão mais aprofundada sobre a própria história.

Quem pode se beneficiar da prática

Os pesquisadores associam o benefício a uma sensação de reconexão entre passado, presente e futuro, fenômeno que o estudo chama de descarrilamento quando essa ligação se rompe. Pessoas com depressão costumam relatar dificuldade em enxergar continuidade na própria vida, o que reforça sentimentos de estagnação ou fracasso.

Christopher Jeffrey Davis, doutorando em psicologia e primeiro autor do artigo, explicou à Agência Einstein que os participantes revisitaram experiências relevantes, identificaram metas atuais e refletiram sobre como esses episódios moldam suas perspectivas futuras. Segundo ele, esse processo aumentou a resiliência dos voluntários frente aos sintomas depressivos.

A escolha por estudar adultos jovens não foi aleatória. De acordo com Davis, essa faixa etária costuma enfrentar mais barreiras financeiras e dificuldade de acesso a atendimento psicológico especializado, o que torna a escrita uma alternativa de baixo custo a ser testada. Ainda assim, o pesquisador pondera que os efeitos observados sugerem que o benefício pode não se limitar a essa faixa etária.

O que fazer na prática

O psiquiatra Daniel Oliva, coordenador médico do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Hospital Israelita Albert Einstein, avalia que o ato de narrar a própria história por escrito fortalece a percepção de identidade e funciona como fator de proteção emocional. Segundo ele, essa construção narrativa evita que a pessoa se veja apenas como uma sequência de fracassos e ajuda a enxergar a vida como um processo em progressão, conforme declarou à Agência Einstein.

Momentos de transição, como aposentadoria, mudança de emprego ou divórcio, também podem ser gatilhos que levam à necessidade de reorganizar experiências passadas e planos futuros, segundo Oliva. Para ele, reconhecer limitações e possibilidades dentro de um acompanhamento terapêutico adequado tende a trazer resultados positivos.

Davis reforça, no entanto, que a escrita terapêutica não deve substituir o tratamento convencional da depressão. O diferencial dos resultados observados no estudo, segundo o pesquisador, esteve nas orientações estruturadas fornecidas durante o processo de escrita, o que sugere que a prática funciona melhor como complemento a um acompanhamento psicoterápico, e não como estratégia isolada.

Riscos e cuidados a considerar

Oliva alerta que a prática não é indicada sem critério para qualquer pessoa em qualquer momento do quadro depressivo. Pessoas com sintomas ativos e sem acompanhamento profissional podem revisitar lembranças sob um viés de autocrítica intensa, o que arriscaria intensificar o sofrimento em vez de aliviá-lo.

Outras atividades citadas pelo psiquiatra como potenciais aliadas ao bem-estar emocional incluem a prática esportiva regular, o estudo e, evidentemente, o acompanhamento terapêutico formal. Nenhuma delas, contudo, é apresentada como substituta de tratamento médico ou psicológico estabelecido.

O que ainda falta esclarecer

O estudo trabalhou com uma amostra específica, de jovens adultos com sintomas moderados a graves, o que limita a generalização direta dos achados para outras faixas etárias ou intensidades do transtorno sem novas pesquisas, como pontuou o próprio autor principal do trabalho. Também não há, nas fontes consultadas, indicação de que a prática tenha sido validada como protocolo clínico padronizado no Brasil ou em outros países.

Para quem tem depressão diagnosticada ou suspeita de algum transtorno de saúde mental, a orientação é buscar avaliação com profissional especializado antes de adotar qualquer prática como estratégia terapêutica. Em situações de crise ou necessidade de apoio imediato, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, além de chat e e-mail, em todo o território nacional.

Fontes consultadas

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